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17 de agosto de 2026

Asas para uma suína


Vejo você voar

Tal qual uma suína em pleno ar

Eu no chão

Encarando a situação

Você nunca deveria ter me amado

Eu deveria ter me perdoado

Poderia ser eu em pleno ar

Mas pelo canto da sereia me deixei levar

Pérfida e profunda

És obtusa

A mais cruel das minhas musas

De sangue frio você me inunda

E como lagartinha

As folhas, eu tinha

Mas eu decidi voar

Sem nem em borboleta me transformar

Espatifei no chão

Suas gargalhadas eu ouvi, em vão

Não consegui me levantar

E você não quis me ajudar

Você, ocupada, vivendo

Eu, em vão, morrendo

Já quis voar como você

Mas temi ser suína e esquecer

Que eu precisaria de asas

E como um satélite de carne, observar as casas

Das quais nunca participarei

As mesmas que, em pensamento, destruirei

Ao voar, tente não cair

Tente apenas subir

Ou quem vai rir serei eu

Sempre à espreita de um erro seu

Em meu sonho febril

Contemplo a natureza

Do que nunca existiu

Da minha doença, a beleza

Uma poesia

Quem diria!

A medrosa donzela

Escreveria uma bela

Com emoções sangrentas

Em manhãs opulentas

Lá vai a suína, a bela e a fera

E eu a espera

Oferecendo um braço

Que eu ainda caço

Uma presa

Uma chama acesa

Um braço robótico

Que exótico!

Vejo você voar

E eu a afundar

Em pleno oceano

Vejo o passar do ano

Ou eu me renovo

Ou eu me afogo

E, com palavras feias e vãs

Tento me manter sã

Com os dedos em chama, eu imploro

Com lágrimas de sangue, eu choro

E assim, a gente vê

Que eu ainda não esqueci você

(E não sei se quero esquecer)

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