Vejo você voar
Tal qual uma suína em pleno ar
Eu no chão
Encarando a situação
Você nunca deveria ter me amado
Eu deveria ter me perdoado
Poderia ser eu em pleno ar
Mas pelo canto da sereia me deixei levar
Pérfida e profunda
És obtusa
A mais cruel das minhas musas
De sangue frio você me inunda
E como lagartinha
As folhas, eu tinha
Mas eu decidi voar
Sem nem em borboleta me transformar
Espatifei no chão
Suas gargalhadas eu ouvi, em vão
Não consegui me levantar
E você não quis me ajudar
Você, ocupada, vivendo
Eu, em vão, morrendo
Já quis voar como você
Mas temi ser suína e esquecer
Que eu precisaria de asas
E como um satélite de carne, observar as casas
Das quais nunca participarei
As mesmas que, em pensamento, destruirei
Ao voar, tente não cair
Tente apenas subir
Ou quem vai rir serei eu
Sempre à espreita de um erro seu
Em meu sonho febril
Contemplo a natureza
Do que nunca existiu
Da minha doença, a beleza
Uma poesia
Quem diria!
A medrosa donzela
Escreveria uma bela
Com emoções sangrentas
Em manhãs opulentas
Lá vai a suína, a bela e a fera
E eu a espera
Oferecendo um braço
Que eu ainda caço
Uma presa
Uma chama acesa
Um braço robótico
Que exótico!
Vejo você voar
E eu a afundar
Em pleno oceano
Vejo o passar do ano
Ou eu me renovo
Ou eu me afogo
E, com palavras feias e vãs
Tento me manter sã
Com os dedos em chama, eu imploro
Com lágrimas de sangue, eu choro
E assim, a gente vê
Que eu ainda não esqueci você
(E não sei se quero esquecer)
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